Janeiro 11, 2009

O caso do cabrito vivo

Como todos os angolanos festeiros não houve quem não cometesse alguns absurdos na quadra festiva que por fim termina.
Perdoem-me comentar, mas há coisas que simplesmente não podem deixar de ser partilhadas.
Dia 24 de Dezembro chego a casa ao fim do dia depois de um dia longo pelos motivos que todos conhecemos na capital e desejosa por encontrar-me a sós com o meu sofa fui informada pelo vizinho do 5 não havia eu ainda subido as escadas que tinhamos um novo inquilino no andar. Pelo semblante do homem o novo vizinho devia ser uma espécie de celebridade daquelas fabricadas pelo Big Brother África ou alguém muito menos solicitado mas igualmente conhecido.
Estranho dia para mudancas pensei comigo, coitado do homem ter de mudar-se num dia como este.
Perdi-me noutras preocupações enquanto subia, abri o portão e dei de caras com ele alí no corredor.
Parecia confuso, perdido e um pouco sobressaltado com a agitação da vizinhança, todos queriam vê-lo e alguns receosos de chegar mais perto ainda assim a curiosidade era muita.
Via-se que era normal igual aos outros talvez um pouco mais velho, mas não compreendia o porquê de tantos olhares. Talvez fossse da barba que lhe dava um ar envelhecido, ou do odor ganho durante a longa e aborrecida viagem. Inclinou-se sobre si mesmo num gesto desesperante, talvez triste, ou apenas cansado com a sua sorte. Percebi que não se iria apresentar , tinha a cara noutra direcção devia de estar aborrecido com multidão de gente que o observava. De repente olhou para mim e ficou assim por uns instantes e quando parecia que por fim iria dizer alguma coisa calou-se.
Meti-me apartamento a dentro e meditei sobre o absurdo da situação quando recebi o telefonema da síndica informando que precisava reunir-se com a os moradores do prédio “para resolvermos o caso”.
Aparecerem quase todos, entre os ausentes estavam os vizinhos do 16, 9, 3 e o novo inquilíno claro. Falava-se muito, alguns opinavam a sorte do dito, outros comentavam que poderia vir ja embalado, que não deveria ter ocupado aquele lugar no corredor, que assim também já era demais e eu ali feita parva sem compreender muito bem onde se pretendia chegar. Uma coisa era certa nunca em ocasião alguma os moradores estiveram tão unidos a excepção de uma vez que a síndica exigiu o dobro da mensalidade por conta do consumo excessivo de água, água essa que por motivos óbvios não chevaga a nenhum dos apartamentos. Fora isso nunca houve tal tipo de solidariedade.
O do 9 mal chegou e já trazia soluções de como resolver a situação. o do 16 não quis nem saber, subiu apressado porque assuntos assim lhe eram indiferentes, no ano passado já tinha também recebido uns parentes vindos do sul e com eles se faziam acompanhar uns suinos para desgosto dos vizinhos sabia que era só inveja. O do 3 ameaçou logo contactar as entidades oficiais e só depois lembrou-se que era tolerância de ponto.
Dissessem o que dissessem o tal permaneceu no corredor, dali não se mexia, tinha direitos. Acabou-se a reunião sem termos nada decidido, a mim incomodava-me porque era exatamente no meu andar. Desejei fazer qualquer coisa mas não sabia o quê, ja era tarde e a hora da ceia aproximava-se.
Na manha seguinte, sem mais nem menos estava morto. Morto de morto, assim só sem sangue nem. Ainda tentaram faze-lo acordar com alguns gritos e abanães nada, não havia dúvida estava morto.
O dono desconfiado e inconformado chamou um mais velho sábio nesses assuntos que diagnosticou: não se come cabrito neste natal.

0 comentários: